
O audiovisual brasileiro entre o estado indutor e o governo produtor
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Pego uma carona no slogan de JK dos anos 1950 para traduzir o que o filme “Ainda Estou Aqui” está fazendo pelo cinema brasileiro nos últimos 6 meses. Não só pelo cinema, mas também pelo Brasil – afinal estamos falando de autoestima, um reconhecimento para que o mundo entenda que somos culturalmente muito interessantes porque somos muitos, múltiplos e cheios de talento.
Uma amiga querida e brilhante costumava dizer que o Brasil quando é moderno é muito moderno. Quando é arcaico é demasiadamente arcaico. Somos testemunhas disso.
Nos anos JK fomos muito modernos. Da arquitetura à antropologia éramos a vanguarda da modernidade. Como a bossa nova e o cinema novo. Fora o assombro que Garrincha, Nilton Santos, Didi e Pelé faziam em campo, sendo fundamentais para transformar o futebol num esporte arte que hoje se transformou numa indústria milionária.
Sempre fui louca por cinema. Talvez porque meu avô, nascido em 1908, tinha verdadeira adoração por filmes. Afinal, o que poderia ser mais moderno do que aquilo que acabou chamando-se de Sétima Arte: imagem em movimento. E mais: viajava pelo mundo. Alguém tem dúvida de que o maior poder exercido pelos Estados Unidos se dá através de seus filmes? Não por acaso desde a II Guerra a MPA – Motion Pictures Association – está estabelecida ao lado da Casa Branca, bem longe de Hollywood, mas ao lado do verdadeiro poder. Questão de Estado.
Ainda criança tive o privilégio de ter aulas de cinema durante o curso primário. Devo a Marialva Monteiro o encanto de entender que a lente zoom trazia para perto o que estava longe. Mágica. Devo ter falado tanto disso que meu pai, não sei como (não tinha link nem dvd na época), talvez com a ajuda de Luiz Carlos Barreto, parceiro dele nas peladas de Copacabana, fui apresentada a “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Pronto. Pirei. O que era aquilo? Aquelas imagens, aqueles personagens, aquela maneira de contar uma história (narrativa ainda não era uma palavra da moda), aquele Brasil? Queria fazer parte daquilo. Daquela novidade. Daquela modernidade.
O Cinema Novo foi a primeira cinematografia “terceiro mundista” que se apropriou da tecnologia desenvolvida durante a guerra que “inventou” as câmeras leves, o gravador portátil e o filme TRI-X que permitia filmar com pouca luz. O cinema saía dos estúdios e ganhava as ruas. Assim nasceu o Neorrealismo Italiano, a Nouvelle Vague e o Cinema Novo.
A música brasileira sempre foi um ativo cultural imprescindível para a identidade brasileira. Mas o Cinema Novo foi a primeira vez que o Brasil e o mundo viam um país que mal conheciam e que era poderoso. Urbano ou rural, barroco ou realista, de norte a sul, víamos ali o que ninguém ainda conhecia. Não que não se filmasse no Brasil até Nelson Pereira, pré cinema novo, propor uma outra coisa com “Rio 40º”. Mario Peixoto já tinha feito a obra-prima “Limite” nos anos 30. Humberto Mauro talvez tenha sido o primeiro “militante” do cinema brasileiro, mas foi em 1964, durante o Festival de Cannes, alguns meses após o golpe, que aqueles jovens brasileiros lançaram o que foi, até agora, o maior reconhecimento internacional de que o Brasil não só existia, como sabia fazer cinema bem a beça.
Sessenta anos se passaram. Muitos Brasis, muitos ciclos, para frente e para trás. Moderno e arcaico. Continuamos a fazer filmes. Alguns com muito sucesso internacional, outros com muito sucesso comercial, alguns poucos com reconhecimento lá e cá. Que bom que insistimos. “Ainda Estou Aqui” é o resultado dessa insistência, desse ciclo evolutivo, mas, sobretudo, porque é um filme que nos faz lembrar que o Brasil vale a pena. Continuamos únicos e interessantes, capazes de fazer com que uma história profundamente brasileira, contada por um cineasta brasileiro, se conecte com o mundo. Um filme sincero, “delicadamente necessário” (aspas para Selton Mello), capaz de tocar o mundo todo: cosmopolita e local ao mesmo tempo, sem nenhum truque, simplesmente porque é assim.
Tenho muito orgulho de estar a frente da Academia Brasileira de Cinema que, desde 2021, é responsável pela indicação do filme que nos representa junto ao Oscar e todos os seus similares no âmbito da FIACINE – Federação das Academias de Cinema Ibero Latina Americana – além de, claro, ser a responsável pelo Prêmio Grande Otelo de Cinema, o nosso Oscar.
Durante muito tempo a indicação do filme estrangeiro ao Oscar era uma coisa meio secundária, uma festa da indústria para a indústria americana. Já foi feita pelo Itamaraty, pela Embrafilme. Com a criação do Ministério da Cultura, em 1985, a tarefa passou a ser unicamente atribuição ministerial. Em 2017, o MinC assinou contrato de cooperação técnica com a nossa Academia, quando se estabeleceu que o filme brasileiro seria indicado por uma comissão cuja maioria seria formada por nós, cineastas brasileiros. Tempos arcaicos ressurgiram. Em 2020, o Secretário de Cultura da época, convencido que havíamos indicado “Democracia em Vertigem” na categoria melhor filme internacional, quis mudar as regras do convênio, fazendo com que o governo tivesse a maioria dos votos. Tentamos explicar que não era verdade. O Brasil naquele ano indicou o filme de Karim Aïnouz, “A Vida Invisível”. “Democracia em Vertigem”, não sem mérito, concorria na categoria melhor filme documentário pelas regras gerais do Oscar (ter sido exibido em território americano, por exemplo), inscrito pela Netflix, produtora do filme. Eles não entenderam. Estávamos num impasse, à beira de um golpe no âmbito do Oscar/Academia Brasileira de Cinema. Expusemos a questão a AMPAS – responsável pela realização do Oscar – que nos enviou um documento nos dando total autonomia na indicação do filme que representaria nosso país. Trata-se de uma escolha dos cineastas.
E assim temos feito desde então. Livres. Imaginem se tivessem conseguido dar um golpe na indicação do Oscar em 2020, assim como tentaram com o país em 8 de janeiro de 2023? “Ainda Estou Aqui” provavelmente não seria indicado. E tenho até medo de imaginar onde poderíamos estar agora.
Tenho esperança de que estamos começando uma nova era de modernidade. De voltarmos a entender que podemos fazer a diferença. O mundo está esquisito. Podemos ser um lugar onde se possa reacreditar nas pessoas. Afinal, não é toda a hora que se tem uma Fernanda Torres. Brilhante, linda, cheia de humor, resultado daquilo que somos de melhor. Falando tudo o que deve ser dito. Pela sua impecável interpretação, pela sua Inteligência rara.
Obrigada “AINDA ESTOU AQUI”.
Viva o Cinema Brasileiro! Viva o que temos de melhor!
Podemos ser incríveis. Estamos aqui.
Produtora, Presidente da Academia Brasileira de Cinema
Rio, 22 de janeiro de 2025


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